3.11.09

Uma personagem sexy




*[Valentina - Guido Crepax]

Internacionalização


não é mais possível guarda o tempo na gaveta

a luz é outra sobre a cidade
e sobre o que se deseja.
não escrevo com calma,
desconheço os blocos de notas.
a espera é um turbilhão de coisas
sem cores e identidade própria.
qual o seu nome?
de onde vem este biscoito que você mastiga,
esse casaco com ideogramas na etiqueta,
o jeans azul escuro
e o
status que você quer ter?

15.10.09

Contratempo


o vento leva a tarde azul

chuva repentina
desenha outro céu


bem vinda, benvinda


com muita alegria, severina garcia,
por lurdinha, elisfeliz, seu correio pombo chegou,
tia seva, receba meus cumprimentos,
o circo coisas da vida, respeitável público,
se apresenta sem horário determinado,
o ingresso é para todos,
sacrifício leitura de muitos,
a lona é colorida,
e o palhaço, válha-me deus,
faz piruetas da velha do arco


Pelhtale

Góngora


O sol, enfim, marca esta manhã carioca depois de dias longos de chuva, cinza e frio. Após minha primeira xícara de café, acordo com
Cierta dama que se dejaba vencer del interés antes del gusto, de Góngora. Sim, a Espanha também está aqui.

Mientras Corinto, en lágrimas deshecho,
La sangre de su pecho vierte en vano,
Vende Lice a un decrépito indïano
Por cient escudos la mitad del lecho.

¿Quién, pues, se maravilla deste hecho,
Sabiendo que halla ya paso más llano,
La bolsa abierta, el rico pelicano,
Que el pelícano pobre, abierto el pecho?

Interés, ojos de oro como gato,
Y gato de doblones, no Amor ciego,
Que leña y plumas gasta, cient arpones

Le flechó de la aljaba de un talego.
¿Qué Tremecén no desmantela un trato,
Arrimándole al trato cient cañones?

29.9.09

Fumaça


Tisu persegue sombras, coleciona idiomas, enche a geladeira de vinho, somente tintos e água. Ele é menos solitário à noite, quando anda pela cidade, dança em boates e conta os litros de cerveja sobre as mesas nos botecos. Quando o sol aparece, mata cada minuto com goles doces de refrigerante, lendo jornais, relatórios e avaliações econômicas e sociais do mundo.


Falta o mar no seu porto. Diariamente, no horário do almoço, entra numa livraria e é meticuloso ao fazer qualquer escolha. Planeja queimar a seção de auto-ajuda. Sua intenção é deixar o cigarro acesso na prateleira. Há meses pensa nisso, falta o gesto e a estratégia para não deixar evidências. Mas, por ser insone, é distraído durante o dia. Isso retarda o seu plano. Tem medo de não conseguir sair a tempo do local. De ser descoberto.

Escreve escreve, mas não vive disso. É
ghostwriter de um colunista de um jornal famoso. No início era um texto por semana, depois a rotina tornou-se diária e graças a suas sacadas, o colunista tem muitos leitores, mas não se dar ao trabalho de ler o que comentam. Ele não simpatiza com as pessoas que lêem jornais.

Que gosto de gelo na boca, sente Tisu. Puxa uma caixa de fósforos do bolso e aperta um cigarro entre o polegar e o indicador. Decide não acender. Caminha um quarteirão e bate o ponto eletrônico semanal. No silêncio de sua repartição excessivamente limpa, com poucos móveis e paredes muito brancas, abre relatórios que devem ir para o arquivo. Ler, carimba e fecha-os. Coloca o cigarro ao lado do teclado e liga o computador. Com o nome e a senha do colunista, começa a redigir as primeiras frases da crônica do dia. Para tirar o sabor frio da língua e dos lábios, abre o refrigerante e um livro. Como toma dois por dia, é fácil deduzir que sua sexta-feira chegou e é igual a da semana passada, a anterior... Na próxima semana não será diferente.

Às 12h10 deixa o computar e vai almoçar. Não quer atravessar a Paulista para poder comer bem. Resolve ir ao bar na esquina do trabalho. Conseguiu se alimentar em quinze minutos. Brinca com o cigarro apagado entre os dedos. Caminha duzentos metros e entra na livraria, senta do lado de uma das janelas do bistrô e pergunta à moça que serviu seu café se pode fumar. Ela confirma com a cabeça. Risca a caixa com o fósforo, traga com vontade e caminha em direção a seção de auto-ajuda.


17.9.09

Quotable quote




"Who has never killed an hour? Not casually or without thought, but carefully: a premeditated murder of minutes. The violence comes from a combination of giving up, not caring, and a resignation that getting past it is all you can hope to accomplish. So you kill the hour. You do not work, you do not read, you do not daydream. If you sleep it is not because you need to sleep. And when at last it is over, there is no evidence: no weapon, no blood, and no body. The only clue might be the shadows beneath your eyes or a terribly thin line near the corner of your mouth indicating something has been suffered, that in the privacy of your life you have lost something and the loss is too empty to share."

By Mark Z. Danielewski {House of Leaves}
*Imagem: Hugo Pratt

16.9.09

misturas


salmão com páprica,

pimenta e alho,
purê de inhame com queijo bom para acompanhar.

ela abriu as cortinas da noite,
cerveja para inspirar e
buscar um novo sabor na mistura do sal com azeite.

chhhhiado na frigideira
é tempo de espera, mais dez minutos.

mais cerveja no copo,
assim começa o ritual para o jantar da terça-feira: sem rotina.